domingo, 17 de outubro de 2010

Oficina 3: Aspectos psicodinâmicos da narrativa

A terceira oficina do projeto de extensão: Narrativa e Formação de Identidade focalizou o tema a partir da pergunta “Por que narrar?”, na busca da compreensão dos motivos que levam o homem a narrar. Para responder a esta pergunta, é necessário antes de qualquer outro passo explicar o que é narrar. Narrar é contar histórias e Contar histórias é trazer à baila, trazer a tona.” (ESTÉS 1997, p.586). Narrar é relatar um fato, um acontecimento. Segundo o site Brazilian Portuguese a narrativa (ato de narrar) pode ser feita na primeira pessoa, quando o narrador se inclui na trama (narrador personagem) ou pode ser na terceira pessoa, neste caso o narrador também é o observador. A historia a ser contada, por sua vez pode ser real ou imaginária. Mas se “quem conta aumenta um ponto” o que é real? E o que é imaginado?

No inicio da terceira oficina, com o intuito de ilustrar a questão da perspectiva do narrador e iniciar o debate oram apresentados três fragmentos do filme “Deu a Louca na Chapeuzinho”. Esse filme tem a sua trama baseada no famoso conto de fadas ChapeuzinhoVermelho, mas apresenta a narrativa de uma trama criminosa por quatro personagens que estão envolvidos e são apontados como suspeitos principais até que se prove o contrario. Cada um dos quatro personagens, a chapeuzinho, a vovó, o lobo e o lenhador contam sua versão à “policia” durante a investigação criminal. Ou - porque não? - narram o fato que presenciaram, construindo a “ocorrência policial”.

O enredo do filme mostra que cada pessoa tem uma maneira própria de perceber e consequentemente narrar um fato. Assim, um acontecimento que teve várias testemunhas terá versões diferentes. A versão, ou narrativa, de cada um dos narradores dificilmente será completamente igual a dos demais. Segundo a Psicologia e a Neurociência, isto ocorre porque a percepção, função cerebral que atribui significado a estímulos sensoriais, ocorre a partir de um histórico de vivências passadas. Por outras palavras, a percepção é a interpretação que cada sujeito dá a um estimulo “capturado” pelos órgãos sensoriais e esta “interpretação perceptiva” dos estímulos, dos fenômenos circundantes, se modifica de sujeito para sujeito, provem da subjetividade.

Continuando a programação da oficina, a professora Laís (responsável pelo presente projeto de extensão) expôs o tema “Por que Narrar?”, trazendo contribuições de diversos autores, bem como contribuições da sua própria experiência acadêmica, profissional e pessoal sobre a importância da narrativa.

Essa síntese foi iniciada com referência à Sherazade, a contadora de histórias de “Mil e uma noites”, que graças ás histórias que contava conseguia adiar sua execução planejada pelo sultão para a manhã seguinte. A seguir a professora comentou os tipos de contadores propostos por Benjamin, o camponês e o marinheiro. O primeiro, permanece no local e conta para manter as tradições, enquanto o segundo se aventura pelo mundo e conta o que viu e viveu. Um e outro aproximam o distante no tempo ou no espaço. Assim, a narrativa é útil para “viver, para manter e para conhecer”. Dando continuidade ao tema, foi comentada a contribuição do psicanalista Bettelheim (1979), especializado em contos infantis, para quem a narrativa também é importante para significar. Segundo o referido autor Se esperamos viver não só cada momento, mas ter uma verdadeira consciência de nossa existência, nossa maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado em nossas vidas ...” (p. 11). Outro autor comentado foi Fischer (1959), que ressalta que o ser humano tem necessidade de transcender sua vida, “vivendo” experiências que poderiam ser suas. Por isso ele lê romances, assiste filmes e novelas, isto é, se interessa tanto pelas histórias. Segundo Fischer, o homem “quer ser um homem total”.(p. 12) Isto é, ele “quer relacionar-se a alguma coisa mais do que o “Eu”, alguma coisa que , sendo exterior a ele mesmo, não deixe de ser-lhe essencial.” (p. 13). Essa é, para o autor, a função essencial da arte. E a narrativa é uma forma artística, é criação do homem. A narrativa é constituída a partir de nossas vivências, com nossos ideais, com a nossa forma de “ver o mundo” e então representá-lo e comunica-lo.

Outro autor comentado foi Estés (1997). De acordo com ela, o ato de narrar também serve para curar, uma vez que as historias funcionam como “bálsamos medicinais(p. 30). Estés destaca que as histórias “... são muito mais antigas que a arte e a psicologia (p. 30) e são suporte de “energia arquetípica”.

A síntese foi concluída com a referência à condição contemporânea do homem, que o tem afastado cada vez mais do experienciar e do narrar. Segundo Safra, o homem atual se caracteriza pelo desraizamento, “a falta de sustentação para experimentar, que o impede de narrar”.

Na oficina foi também realizada a leitura e discussão de trecho selecionado do texto de Lescano et all. (p. 20 e 21) para focalizar o papel da narratividade no desenvolvimento individual e da narratividade na construção social do sujeito. Na abordagem dos autores, destacaram-se a concepção construtivista e o papel do outro.

REFERENCIAS (por ordem de citação)

Edwards, C. Deu a Louca na Chapeuzinho. Barueri: Europa Filmes, 2007.

BRAZILIAN PORTUGUES. Disponível em:http://www.brazilianportugues.com/index.php?idcanal=533; acesso em 22/08/2010

PERRAULT, C. Contos de Perrault. Belo Horizonte : Itatiaia, 1989.

MARGATO, I. Narrar para viver, seduzir e desencantar 1. Disponível em: . Acesso em: 20 jan. 2010.

BENJAMIN, W. O narrador. Textos escolhidos / Walter Benjamim, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 57-74.


MACHADO, A. M. O Tao da teia – sobre textos e têxteis. Estudos avançados 17 (49), 2003. p. 173-196.


BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.


FISCHER, E. (1959) A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.

ESTÉS, C. P. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro : Rocco, 1997.

SAFRA, G. Curando com Histórias: A inclusão dos pais na consulta terapêutica das crianças. Disponível em: http://www.livrariaresposta.com.br . Acesso em:10/08/2010.

_______ O narrar: perspectiva clínica da pós-modernidade? DVD São Paulo: Sobornost, 2001.

LESCANO, E; DAGA, M. A.; GIORDANO, C.; HERMOSO, A. La narratividad em la constituición del sujeto. In ERICE, M. V. G. (Org.) El niño e el cuento: Un estudo de narrativas en niños de escolaridad común y especial. Mendoza; Ed. Faculdade de Educación Elemental y Especial, 2.000. p. 15-24

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